Ensaio de Tempo, de José Edmilson Rodrigues
- Iêda Lima
- 27 de jun.
- 3 min de leitura
Há algum tempo tenho em minhas mãos mais uma obra do confrade e poeta Edmilson Rodrigues. Lí a primeira vez, com o auxílio dos críticos literários José Lino Grünewald e Hildeberto Barbosa Filho. O primeiro, carioca, que nasceu em 13/02/1931 e faleceu em 26/07/2000, um poeta, tradutor, crítico da literatura, do cinema e da música popular brasileira, além de jornalista. O segundo, nascido na cidade de Aroeiras, da Paraíba, um excelente poeta, escritor e jornalista, é professor da Universidade Federal da Paraíba e reside em João Pessoa.
Ambos constam dessa obra do Edmilson que reúne poemas antigos e recentes, com seus comentários sobre a qualidade das peças literárias reunidas em Ensaio de Tempo.
Grünewald destaca: “Você é um poeta culto, despreocupado quanto aos mecanismos de metrificação – procura o ritmo ao natural. Boa sorte!
Já Hildeberto, ocupante da Cadeira nº06 da Academia Paraibana de Letras, diz: “Os pares com que o autor dialoga, em sutil procedimento, apontam para duas vertentes estéticas no terreno da criação. De um lado, um impulso meditativo que faz do lirismo uma corrente de reflexão sobre o tempo...De outro, e a partir deste metabolismo metalinguístico, certo toque inventivo e experimental a se cristalizar na manufatura engenhosa de certos poemas...”
Ao retomar a leitura, desde o início, decidi me liberar da minha restrição de entendimento de poemas complexos. Essa postura abriu um caminho iluminado pela luz da lua em noite de local distante das luzes artificiais e barulhos das metrópoles. Foi assim que fui penetrando em cada poema, alguns mais líricos outros mais formais. Isto me levou a uma leitura que ia além da análise crítica, baseada em conceitos literários complexos, e sim ao recado que o escritor estava dando a si mesmo ou a quem viesse a ler sua obra, agora e num futuro longínquo.
Foi assim que me prenderam a atenção especial os seguintes poemas:
O primeiro, que ele escreveu em homenagem à poetisa americana Emily Dickinson (10/12/1830 – 15-05-1886), que fez quase 1.800 poemas, tendo sido apenas 10 publicados, na época.
EMILY
Há rumores no silêncio
contidos no branco
do seu vestido de moça antiga
que o tempo murchara
feito flor qualquer...
SE A FUGA NÃO TIVER A CONSISTÊNCIA
Se a fuga não tiver a consistência,
esqueça, pois ninguém deve fugir
tão pouco, o teu bem deve se extinguir
e continuarás na mesmice, tua
fantasia estará desnuda e sem consciência.
Erigirás o teu sorvete em forma de falo
E sonharás sem tato numa alcova nua,
na busca do estar ausente. Sentirás
reticentes palavras em que o tempo
será sempre furtivo e a paixão estalo
de procuras e encontros, cerceada
por beijos luxuriosos, onde a vontade
é o êxtase e o corpo todo-pecado.
Não fujas, “fique” e tente a tua verdade.
Vários outros poemas da obra de Edmilson Rodrigues Ensaio de Tempo, da Editora Patuá, 2024, poderiam ser transcritos aqui, como “HÁ O QUE HÁ”; “JOÃO E OUTROS EM SI”, este que ele ofereceu para João Cabral de Melo Neto; “POSSIBILIDADES DAS ASAS”, dedicado ao Rodrigo Grünewald; “O QUE IMPORTA”, no qual ele diz “...gosto que a vida me envolva na sua trama...”; “CANTIGA”, oferecida ao Caetano Veloso; “RIO”, no qual o autor diz “...Apesar de, o Rio, ainda está./Apesar de? O Rio ainda! / Lindo. / Belo, belo.”; e “A NOITE QUE SOA CANÇÃO”, onde ele revela que está “...querendo enxergar o tempo/que diz ser ponte/de todos os sonhos...”; e “CANÇÃO QUE NÃO DIZ...(DESVARIO VERBAL)”.
Porém, não haveria espaço. Portanto, recomendo a leitura para os amantes de poemas que expressam a vivência subjetiva e da linguística da luta das palavras.
O resto, deixo por sua conta, para conferir.

Excelente análise!!!!!! O livro é absolutamente inspirador! Deve ser lido aos poucos e com carinho. Grande obra de Edmilson Rodrigues!