A GENIALIDADE DO SOLDADO 6362
- Iêda Lima
- 27 de jul.
- 10 min de leitura
Neste dia 23 de julho de 2025 relembra-se a triste perda do grande paraibano Félix de Souza Araújo (22/12/1922-27/07/1953), assassinado por razões políticas aos 30 anos de idade. Quer entender quem foi esse homem? Ele atuou como soldado na guerra contra o nazi-fascismo italiano e ao voltar revelou como sua alma se expandia para outras artes como a de fazer política; usar o dom da oratória para magnetizar as pessoas, levando-as a refletir como ser social, feito para cumprir sua missão terrena, com autonomia e liberdade; ser livreiro, abrindo as portas do mundo dos livros para as pessoas, trazendo a luz dos diversos gêneros literários para os distintos gostos de leitura; comunicar-se com maestria, lançando mão de jornais e programas de rádio; e compor hinos para campanhas eleitorais.
Convido-o a ler o artigo abaixo, de minha autoria, que foi publicado no livro Centenário Félix Araújo, da RGeditora, 2022, que teve como organizadores o confrade da Academia de Letras de Campina Grande (ALCG), poeta Edmilson Rodrigues e o jornalista Fred Ozanan.
Boa leitura!
Ele se declarava mais um número, enquanto atravessava o oceano para lutar contra o nazi-fascismo italiano, ao lado de outros jovens voluntários, no ano de 1943. Aos vinte e um anos de idade, decidira arriscar a vida em defesa da vida e da paz mundial.
Precoce, intenso e visionário, já teria cumprido sua missão na terra, se tivesse tombado na luta contra Mussolini, Hitler e seus fanáticos seguidores, que em nome de suas ideologias fomentaram o ódio racista, perseguiram e mataram todos os que não se subjugavam aos seus caprichos ou ousavam ter um pensamento crítico e exercer o direito do contraditório.
Teria também nos deixado sua obra lírica Tamar, poema em prosa, escrito em 1940; assim como várias crônicas publicadas em jornais, escritas desde os dezesseis anos de idade, proeza que teria despertado a atenção do escritor Alceu de Amoroso Lima, pela sua erudição.
Tempos depois, Félix Araújo foi alçado à qualidade de “cronicário portador de largo alcance estético, (onde) o recorte telúrico, a afetividade do código das relações interpessoais e a ênfase posta na solidariedade também poderiam ser objeto do nosso olhar reflexivo”, pelo escritor, ensaísta e professor de Teoria da Literatura, da UFCG, José Mário da Silva, em brilhante artigo publicado na Revista n° 52 da Academia Brasileira de Letras, ano 2007.
Nessa joia rara do ensaismo brasileiro, José Mário discorre sobre o legado de cronista deixado por Félix de Souza Araújo, debruçando-se sobre Maria Preta, Maria Pura; A Cajazeira da Minha Terra; Retrato da Vida; Deixemos a Luz em Paz; Noite de São João; e Salvemos a Democracia.
Em Maria Preta, Maria Pura, ele identifica um texto impregnado “de um visível sabor elegíaco, num incursionamento lírico... feito da mais acendrada tonalidade recordativa, uma tentativa de trazer de volta ao coração o irremediavelmente perdido”.
Na crônica A Cajazeira da Minha Terra, o escritor reconhece um veio afetivo impregnado de paixão lírica, elaborando “uma concepção de cidade, em cujo estuário dialético a urgência do progresso no presente não se erga sobre os escombros do passado esmagado”.
Em Retrato da Vida, José Mário detecta “o flagrante tom de meditação filosófico-existencial, (que) aproxima a crônica do viés ensaístico... numa espécie de epifania que emerge de um aparentemente prosaico e intranscendente lance do cotidiano.”
Na crônica Deixemos a Luz em Paz, o professor relata que Félix “condena as intolerâncias ideológicas, tanto as de esquerda quanto as de direita, e, humanisticamente, reivindica para a terra, e não para a lua ameaçada pelos loucos tecnicismos humanos, o olhar detido dos homens, pois é nela, terra, que, “entre prantos e esperanças, se decidirá o drama do nosso destino””.
Sobre a Noite de São João, José Mário nos convida a penetrar na tristeza profunda de Félix, “acolhida da perplexidade pelo que passou no plano da cronologia objetiva, mas ficou preservado no indevassável território da memória.”
Finalizando sua análise sobre as crônicas de Félix Araújo, o professor realça “o lema da liberdade política a ser exercida sem as peias das doutrinações unidimensionais”, na crônica Salvemos a Democracia.
Ao navegar pelas obras poéticas do soldado 6362, José Mário qualifica a criação literária de Félix Araújo como um harmonioso conjunto dialético do universo estético com o projeto ideológico, “constituindo os modos de ver e de dizer a realidade, face e contraface de uma mesma energia criadora, à luz da qual a arte, refratária às clausuras formalistas das absenteístas torres de marfim, se consolidava como uma efetiva intervenção na realidade social, objetivando não somente transfigurá-la, mas contribuir para a sua transformação”.
Com sua lupa e abertura para transgredir regras, professor José Mário da Silva passa por Tamar, Dor, Fraternidade e Folhas Soltas, concluindo que a poética de Felix de Araújo “é uma novidade que permanece novidade”, citando Ezra Pound.
Sobre o poema Tamar, o ensaista o define como ”um abismal mergulho nas camadas mais indevassáveis da interioridade”, porém com espaço para “rastrear o mundo que o atraiu com irresistível força, o das desigualdades sociais, permanentemente clivado entre opressores e oprimidos”.
Em seu livro Dor, Félix admite que a morte, embora seja fato comum no mundo e na natureza, trazia-lhe à tona sentimentos de forte impacto emocional, como angústia e desencanto. A leitura crítica de José Mário sobre os poemas contidos nessa obra é de que “parecem nuclearizar-se pelo sentimento de impotência que se abate sobre a subjetividade humana em sua ingente e, por vezes, vã luta contra a materialidade concreta do humano... (e pela) ... cartografia de uma interioridade clivada entre o solar e o noturno”.
Pois é justo do lado iluminado da alma de Félix que surge Fraternidade, prosa que descortina a essência do ser felixiano, onde “o amor, a felicidade, o trabalho, o tempo e, por fim, a liberdade (constituem) verdadeiro leitmotiv do caleidoscópico pensamento de Félix Araújo”
José Mário da Silva finaliza seu ensaio sobre as obras de Félix de Souza Araújo, realçando “o reencontro (do autor) com a esperança, tessitura basilar do lirismo de Folhas Soltas”.
Desse conciso resgate do conteúdo das obras de Félix Araújo, ao girar o caleidoscópio vê-se que, à semelhança da explosão de vida de uma “Dama da Noite”, a alma de Félix expandia-se para outras artes como a de fazer política; usar o dom da oratória para magnetizar as pessoas, levando-as a refletir como ser social, feito para cumprir sua missão terrena, com autonomia e liberdade; ser livreiro, abrindo as portas do mundo dos livros para as pessoas, trazendo a luz dos diversos gêneros literários para os distintos gostos de leitura; comunicar-se com maestria, lançando mão de jornais e programas de rádio; e compor hinos para campanhas eleitorais.
Aluno exemplar, do ensino básico ao superior, alcançou aproveitamento máximo nas cinco primeiras séries do Ensino Fundamental, cursadas na Escola Pública Estadual de Cabaceiras, e conquistou destaque “em quadros da Faculdade de Direito de Recife, pela qualidade intelectual e pelo conhecimento das matérias jurídicas nela contidas”, como testemunhou seu irmão, Mário de Souza Araújo, vereador campinense por quatro legislaturas, 1954, 1958, 1976 e 1982, quando do seu discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico do Cariri Paraibano, em 08 de dezembro de 2006, em São João do Cariri.
Nesse mesmo discurso, Mário relata que os primeiros passos de Félix Araújo como orador foram dados ainda na solenidade de conclusão do Ensino Fundamental II, no Colégio Diocesano Pio XI; e que “nas diversas fases da sua vida estudantil e universitária, Félix assumiu posição de reconhecido destaque, pelo aproveitamento e interesse demonstrado nos estudos; paralelamente, sua vocação de líder, então revelada, o colocou em evidência, tanto pelo ardor combativo, quanto pelo espírito de solidariedade, demonstrados em defesa dos ideais e das necessidades da juventude estudiosa.”
O poder da oratória já se manifestara desde os tempos em que Félix Araújo serviu na Força Expedicionária Brasileira, durante a II Guerra Mundial. “Quebrando rígidos padrões de disciplina, conseguiu várias vezes falar para a tropa, em vibrantes discursos em defesa dos ideais antifascistas e de estímulo à luta dos compatriotas, em operações de guerra.”
Ainda sobre a magnética força da oratória de Félix, o historiador Josué Sylvestre escreveu em sua coluna A Parte, Jornal da Paraíba, 02 de julho de 1993, que nunca tinha visto alguém falar tão bem quanto Felix Araújo. Parece até que ele estaria falando do pai e do filho.
Félix também foi um educador de visão, pois “fundou o Departamento Municipal de Ensino, realizando um trabalho dinâmico na cidade e nos campos e adotando práticas pedagógicas modernas e eficientes”.
Como político, há uma profusão de textos descritivos e analíticos que tratam da sua meteórica trajetória. Merecem destaque a sua liderança como coordenador das campanhas eleitorais do prefeito Elpídio de Almeida (1947) - vindo a ser seu Secretário de Educação - e do governador José Américo de Almeida (1950); e sua firme e inegociável postura, como vereador mais votado de Campina Grande, entre 1951 e 1953.
Suas denúncias de corrupção na administração do prefeito Plínio Lemos, após ter rompido com o governador que ele ajudara a eleger, custou-lhe a vida, em traiçoeiro crime político, cometido em 13 de julho de 1953, a cinco meses de Félix completar 31 anos de idade. Após lutar bravamente pela vida, Félix de Souza Araújo veio a óbito dia 27 de julho de 1953.
O soldado 6362 viera cair numa guerra política, e não militar. Uma guerra com as armas da oratória, da perspicácia, da dissimulação e da vigilância permanente, motivada pelos embates ideológicos e diferenças de postura frente à ética, à liberdade e à verdade.
A ética para Félix Araújo se expressava no respeito ao passado, na relação harmônica e preservação da Natureza, em todas as suas formas de vida; no tratamento das pessoas como pessoas, e não como objeto; no cuidado e transparência na gestão e uso de recursos públicos; e na empatia, afetividade e solidariedade nas relações interpessoais.
Félix sabia equilibrar-se entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade, contradizendo o sociólogo e filósofo alemão Max Weber (1864-1920), que defendia que “a ética da convicção, deontológica (1), radical, opõe-se inevitavelmente à ética da responsabilidade, teleológica (2), flexível” (3).
A liberdade era defendida por Félix com a mesma base e força argumentativa do Dostoiéviski. Filósofo, escritor e jornalista do Império Russo, Dostoiésviski (1821-1881) aguçou os paradoxos, ao máximo, presentes na contradição entre a genuína ânsia do ser humano por liberdade e sua necessidade de segurança. Assim como se revelou em Félix, “para Dostoiévski ... a liberdade, a responsabilidade e a capacidade de surpreender definem a essência humana.” (4)
Tendo pertencido aos quadros do Partido Comunista Brasileiro, chegando a se candidatar a Deputado Federal, em 1946, e a Deputado Estadual, em 1947, quando do período de legalidade do partido, em 1948, rompeu com o PCB, pelos mesmos motivos que fizeram Dostoiéviski travar uma luta ideológica com os teóricos do socialismo científico, por meio das obras Os Demônios (1871) e Os Irmãos Karamazov (1880).
Ambos lançaram mão do precioso conceito de Liberdade e se rebelaram contra as amarras autoritárias, baseadas no mito da perfeição nas relações sociais, e optaram por navegar no mar da complexidade humana, com coragem e aguçado senso crítico.
Contudo, diferentemente de Dostoiéviski, Félix não se deixou abalar pelo desencanto com a humanidade e seguiu firme, com leveza e empatia, na sua trajetória de luta pelos ideais libertários, arriscando-se no limite do suportável para um ser humano, liderando simultaneamente estudantes universitários, em Recife, e seu povo amado de Campina Grande.
Assim como o filósofo russo da liberdade individual, Félix também usou suas obras escritas para retratar, em verso e prosa, a realidade social e os paradoxos do comportamento humano.
Sobre isto, o escritor José Mário constatou que “A expressão poética de Félix Araújo se plasmou com a indelével argila da experiência de quem viu o mundo, sentiu-lhe o ontológico desconcerto e buscou transcendê-lo pelos transmanentes caminhos da literatura.”
Félix Araújo foi além do Dostoiéviski, criando seus próprios canais de comunicação com o público, jornais e programas de rádio, para seguir na sua luta “pela destruição de todas as formas de subserviência física e moral do Homem”, frase contida em carta endereçada ao escritor Joel Silveira, durante a II Guerra Mundial, e contada por este, em História de Pracinha (5).
Defensor da verdade, que compõe o terceiro eixo do seu tripé de valores inegociáveis, sendo ética e liberdade os outros dois, Félix de Araújo bradou: "Maldito para sempre o que esconder a verdade, que não lhe pertence, é de todos. Mil vezes melhor sucumbir incendiado em suas chamas crepitantes e irresistíveis, e ter os olhos corroídos pela intensidade de sua luz, que caminhar sobre o pântano venenoso da mentira, movediço porque embebido de sangue, iluminado, como os cemitérios, pela enganosa luz dos fogos-fátuos." (6)
A Verdade, como conceito, vem sendo objeto de distintas interpretações, desde Sócrates (470 a.C.-399 a.C.) que foi mentor de Platão (428 a.C.-347 a.C.). Sabe-se, por meio deste, que Sócrates dizia existir verdades universais, válidas para toda a humanidade em qualquer espaço e tempo; para o filósofo Nietzsche (1844-1900), entretanto, a verdade era um ponto de vista.
Félix seguiu a linha de Platão, que dizia no seu diálogo Crátilo, entre Sócrates e Hermógenes: "Verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são; falso é aquele que as diz como não são.". Por ser portador desse conceito de Verdade, Félix tinha plena consciência dos riscos que corria, com sua veemente convicção sobre a verdade factual. Disse ele: "Dura é a verdade. Dura e incômoda. A sua luz queima como ferro em brasa, e cega a sua claridade." (7)
Entretanto, Félix de Souza Araújo também sabia que “A verdade que mata é a mesma que ressuscita”. Aí está ele! Ressuscitando, sempre, pelas mãos de historiadores, ensaístas, romancistas, cordelistas, poetas e cronistas, pelo Brasil afora.
É na capacidade de tornar esta frase real que se expressa a genialidade do SOLDADO 6362!
(1) Deontologia é uma filosofia que faz parte da filosofia moral contemporânea, que significa ciência do dever e da obrigação. A deontologia é um tratado dos deveres e da moral. É uma teoria sobre as escolhas dos indivíduos, o que é moralmente necessário e serve para nortear o que realmente deve ser feito.
(2) A teleologia (do grego τέλος, finalidade, e -logía, estudo) é o estudo filosófico dos fins, isto é, do propósito, objetivo ou finalidade. Platão e Aristóteles elaboraram essa noção do ponto de vista filosófico.
(3) THIRY-CHERQUES, Hermano Roberto. Max Weber e a ética das organizações. RAP Rio de Janeiro 31(2):5-21. MAR./ABR. 1997, p.18
(4) MORTON, Gary Saul, Fyodor Dostoevsky: philosopher of freedom. In The New Criterium, Jan.2021, p.7
(5) SILVEIRA, Joel. História de Pracinha. Rio de Janeiro: Tecnoprint. 1967, p. 33
(6) VASCONCELOS, Amaury (Org.). Antologia dos Oradores Paraibanos. João Pessoa: A União, 2001
(7) DE SOUZA, Luciano Ferreira. Platão - Crátilo in Dissertação de Mestrado. USP/Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas; São Paulo, 2010. 385b

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