top of page

A vida não é útil - Ailton Krenak

  • Foto do escritor: Iêda Lima
    Iêda Lima
  • 9 de mai.
  • 4 min de leitura

No seu livro “A vida não é útil”, Editora Companhia das Letras, 2020, Ailton Krenak culpa os brancos pela maneira como eles se relacionam com a Terra, a Natureza e a Vida e a sua dificuldade em compreender que os indígenas têm outros conceitos de educação, de sustentabilidade, de perdas e até da maneira de entender a infraestrutura como necessidade para tornar a vida mais confortável.


Ele critica a educação como a compreendemos e diz que “...o modo de vida ocidental formatou o mundo como uma mercadoria e replica isso de maneira tão naturalizada que uma criança que cresce dentro dessa lógica vive isso como se fosse uma experiência total. As informações que ela recebe de como se constituir como pessoa a atuar na sociedade já seguem um roteiro predefinido: vai ser engenheira, arquiteta, médica, um sujeito habilitado para operar no mundo, para fazer guerra; tudo já está configurado...” Ailton afirma que “... Nesse mundo pronto e triste eu não tenho nenhum interesse, por mim ele já podia ter acabado há muito tempo, não faço questão de adiar seu fim.... O que chamam de educação é, na verdade, uma ofensa à liberdade de pensamento, é tomar um ser humano que acabou de chegar aqui, chapá-lo de ideias e soltá-lo para destruir o mundo”.


Sobre sustentabilidade, Krenak questiona esse conceito e o considera uma “vaidade pessoal” e diz “...eu concordo que precisamos nos educar sobre isso, mas não é inventando o mito da sustentabilidade que nós vamos avançar. Vamos apenas nos enganar, mais uma vez, como quando inventamos as religiões...”


Sobre viver em situação de perdas, de catástrofe e de guerra, o autor fala da experiência do seu povo e manifesta de maneira chocante o que ele quis dizer com essa sua obra A vida não é útil: “...Os Krenak não aceitaram ser retirados (da área que sofreu os efeitos do acidente de Brumadinho) quisemos ficar no lugar do flagelo...Sabemos que esse lugar foi profundamente afetado, virou um abismo, mas estamos dentro dele e não vamos sair. É uma questão que incomoda, mas é preciso estar nessa condição para poder produzir uma resposta em plena consciência...Uma operação de resgate tem como intuito salvar o corpo que está sendo flagelado e levá-lo a outro lugar, onde será restaurado. Quem sabe, depois de uma reabilitação, ele pode até seguir operante na vida. Isso partindo da ideia de que a vida é útil, mas a vida não tem utilidade nenhuma. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade a ela, mas isso é uma besteira. A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária...”


O olhar de Krenak sobre as cidades é que elas são “...como um implante sobre o corpo da Terra. Como se não satisfeitos com a beleza dela, pudéssemos fazê-la diferente do que ela é. A gente deveria é diminuir a investida sobre seu corpo e respeitar sua integridade. Quando os índios falam: “A Terra é nossa Mãe”, os outros dizem: “Eles são tão poéticos...” Isso não é poesia, é a nossa vida. Estamos colados no corpo da Terra. Quando alguém a fura, machuca ou arranha, desorganiza o nosso mundo.


Cada indivíduo dessa civilização que veio para saquear o mundo indígena é um agente ativo dessa predação. E estão crentes de que estão fazendo a coisa certa. Talvez o que incomode muito os brancos seja o fato de o povo indígena não admitir a propriedade privada como fundamento. É um princípio epistemológico...”


Tendo assumido a Cadeira nº 05 da Academia Brasileira de Letras, no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Krenak diz que “...apreciando uma determinação da Comissão da Verdade, onde o Brasil é demandado a pedir perdão por ter tentado matar o povo indígena através dos seus instrumentos republicanos, suas milícias, suas polícias, seus exércitos, suas forças armadas, que não deixou ninguém de fora. Todo mundo participou dessa espécie de pesadelo em que os indígenas eram considerados um risco e que tinham que passar por campos de reeducação.


A terra indígena Krenak, ela foi um reformatório nos moldes do que a gente imagina ter acontecido em países de governos totalitários, onde parte da comunidade que formava aquela nação, era separada para ser reeducada, para poder voltar a convívio...”


Ainda no seu discurso de posse, Krenak fala sobre as mulheres: “...Eu tenho a alegria de ter vivido até agora com uma ampla proteção dos seres femininos. Começando pelas minhas avós, minha mãe, minhas irmãs, minhas companheiras, mães dos meus filhos, minhas filhas, minhas netas. E essa proteção do mundo feminino na minha vida, eu acho que ela me tornou uma pessoa melhor.


E aí, toda vez que eu encontro lugares onde as mulheres já colonizam, eu me sinto muito mais à vontade. Gratidão a todas essas senhoras, mães, avós, irmãs, filhas, netas. É maravilhoso e que estejam em maioria aqui, uma maioria gentil, que pode tornar o mundo muito mais interessante...”


Ativista indígena dos direitos humanos e autor de vários livros, textos e artigos publicados em coletâneas no Brasil e exterior, Ailton Krenak nasceu em 29 de setembro de 1953, no Córrego do Itabirinha, distrito de Itabira no Vale do Rio Doce em Minas Gerais, pertencente à etnia Krenak.


Em 1982 foi Membro Fundador da União das Nações Indígenas (UNI), uma organização representativa dos interesses indígenas com protagonismo nacional e internacional na busca, defesa e promoção dos direitos indígenas, que é considerada fundamental na articulação do movimento indígena nacional e panamericano. Foi coordenador de comunicação e publicações.


Em 1987, no contexto das discussões da Assembleia Constituinte, liderou a luta pelos princípios inscritos na Constituição Federal do Brasil.


Desde 1987 – É Coordenador da Aliança dos Povos da Floresta ou “Rede Povos da Floresta”, movimento que reuniu povos indígenas e seringueiros, em especial Chico Mendes, em torno da proposta da criação das reservas extrativistas, visando a proteção da floresta e das populações que nela habitam.


Como branca que sou, resta-me compreender a sua filosofia e ler suas obras com uma iluminação diferente da que costumo usar para ler outras prosas e poesias, mas sempre respeitando a maneira como cada um ver a vida, embora discordando de parte da sua visão do mundo, da humanidade e da igreja.


ree

Comentários


VAMOS CONVERSAR?

Iêda Lima

Instagram: @iedalimaescritora

Facebook: @iedalimaa
iedalimaescritora@gmail.com

Mensagem enviada!

​SIGA-ME

  • Facebook Social Icon
  • Instagram ícone social

© 2024 por Izk Tech

bottom of page